17 de Jul de 2018


COPOM deve congelar a Selic em fevereiro

IPCA tende a subir além do desejável em janeiro

Por: Fabio Silveira
22/01/2018 às 13h29

Nos últimos meses, de forma silenciosa, os preços no atacado voltaram a ganhar fôlego, reforçando a perspectiva de aceleração do IPCA, o que pode levar o COPOM (Comitê de Política Monetária) do BCB (Banco Central do Brasil) a interromper a atual orientação expansionista.

Receoso de cometer outro erro no “ajuste fino” dos juros básicos, como visto em 2017, quando adotou excessivo aperto monetário, prolongando, sem necessidade, o ciclo recessivo iniciado em 2015, o referido comitê deve congelar a taxa Selic no patamar de 7% ao ano (ao invés de baixá-la para 6,75% ao ano, conforme prevê o mercado) em sua próxima reunião, nos dias 8 e 9 de fevereiro.

Isto porque, um pequeno fantasma ronda o “guardião da moeda brasileira”, que é o justificado temor de que os agentes mais atentos comecem a duvidar da propalada perícia da equipe atual, caso a mesma, já em março, seja obrigada a majorar os juros básicos, revertendo, de súbito, sua longa trajetória declinante, iniciada em outubro de 2016.

O fato concreto é que, no ano passado, o COPOM NÃO soube fazer uma leitura exata da dinâmica inflacionária, tendo, paradoxalmente até, que “torcer pelo aparecimento” de maior pressão inflacionária no último trimestre, para tornar menos explícita sua falha na calibragem da Selic. No fechamento de 2017, a inflação brasileira somente galgou a marca de 2,95%, após a economia receber algumas fortes “injeções” de preços administrados (tarifas públicas, energia elétrica e combustíveis). Ainda assim, ela ficou abaixo do piso da meta.

Logo, a instância máxima da política monetária não pode incorrer noutro equívoco em termos de adequada regulagem da Selic em 2018, sob pena de arranhar o prestígio do qual necessita para o desempenho adequado de seu papel.

Os dados abaixo ajudam a explicar a situação:

No primeiro semestre, o IPA-M (Índice de Preços ao Produtor Amplo) registrou deflação média de 0,69%, enquanto que o IPCA aumentou, em média, 0,27% ao mês. Por outro lado, no segundo semestre, a variação média do IPA-M foi de 0,27% ao mês; e a do IPCA, 0,22% ao mês, com viés de alta, pois, em dezembro, este índice teve aumento de 0,44%.

A primeira parte do enunciado indica que o COPOM reagiu tardiamente à forte contração de preços ocorrida no atacado no primeiro semestre. Basta observar que, em junho, apesar de o IPA-M acumular, então, uma deflação de 3,2% nos últimos doze meses, os juros básicos ainda se sustentavam na estratosférica marca de 10,3% ao ano!!

Em contrapartida, a segunda parte do enunciado permite identificar a existência, neste momento, de uma pressão altista de preços, mesmo que moderada, “represada” na esfera do comércio atacadista (só em dezembro, o IPA-M subiu 1,24%). O problema é que tal pressão, olhada em perspectiva, tende a ser ampliada e transferida ao consumidor em breve, uma vez que a economia brasileira, em 2018, caminha para:

a)  Um crescimento de 2,3% da massa real de rendimento (superando o avanço de 1,7% havido, em 2017) e uma expansão de 2% da oferta real de crédito à pessoa física (ante uma redução de 0,5%, no ano passado), que contribuirão para o aquecimento da demanda interna; e

b)  Uma diminuição de 4% da produção doméstica de grãos, situando-se em 232,0 milhões t, que tende a se traduzir em maior pressão de custo agrícola.

Diante do exposto, avalia-se que o Copom tem bom motivo para congelar a Selic em 7% ao ano no encontro do próximo mês.


Mestre em economia pela Universidade de Grenoble (França) e pós-graduado pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra (Suíça). Economista formado pela USP. Foi superintendente de estudos setoriais e de investimentos do UNIBANCO, além de economista da Copersucar e do Senai. Atuou nas principais consultorias do país. Hoje é sócio-diretor da MacroSector Consultores.

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