16 de Dec de 2017


Fim da recessão? PIB ainda no buraco

Apenas conforta saber que há um movimento em direção à superfície.

Por: Roberto Macedo
08/09/2017 às 13h56

Publicado no Estado de São Paulo em 02/07/17


Na sexta-feira o IBGE anunciou que no segundo trimestre deste ano o Produto Interno Bruto (PIB) da economia brasileira cresceu 0,2%, relativamente ao trimestre anterior, quando o crescimento medido da mesma forma foi de 1%. Com isso vieram dois trimestres consecutivos de variação positiva do PIB, após uma sequência de oito trimestres, ou dois anos, em que esse mesmo cálculo produziu só taxas negativas. Como resultado, o PIB anual caiu 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016.

As duas taxas trimestrais positivas foram saudadas por vários analistas como o fim da recessão. É por conclusões desse tipo que muita gente estranha o economês, o jargão típico dos economistas. Como pode a economia ter saído da recessão se essas duas taxas trimestrais em 2017 estão longe de compensar a queda acumulada de 7,26% do PIB nos últimos dois anos? Esclareço que esta última taxa é um pouco menor que a soma, 7,4%, das duas citadas taxas de quedas anuais, porque a segunda queda incidiu sobre um PIB reduzido pela primeira.

Essa nada esclarecedora narrativa do fim da recessão vem de uma convenção entre os economistas, a de que dois trimestres consecutivos de variação negativa do PIB marcam uma recessão. Se a variação trimestral passa a positiva em dois trimestres subsequentes, como ocorreu na primeira metade deste ano, convenciona-se que a recessão terminou.

Pondero que isso diz respeito apenas à direção das variações do PIB, não à sua magnitude. E a queda do PIB foi tão forte que é preciso deixar bem claro que nossa economia está muito longe de sair do enorme buraco a que foi levada pela ex-presidente Dilma e por Lula, seu criador. Supondo, seguindo vários analistas, que o PIB cresça 0,7% este ano e à taxa de 2,5% nos seguintes, só ao fim de 2020 (!) é que sairia do buraco.

Percebe-se, também, que essa velocidade prevista para os próximos anos tampouco é satisfatória. Aliás, estes 2,5% ao ano aproximadamente refletem apenas a reduzida velocidade média verificada nesta e nas três décadas anteriores, que deixou o País para trás e longe na maratona internacional pelo crescimento econômico.

O noticiário sobre o PIB do segundo trimestre também menosprezou o papel da agropecuária e da dinâmica do agronegócio em geral. A ênfase quanto ao resultado foi posta no aumento do consumo e em aspectos que contribuíram para esse aumento, como a menor inflação, que aumenta o poder aquisitivo dos consumidores quando seus rendimentos nominais são reajustados integralmente pela inflação passada. Também foram mencionadas a liberação das contas inativas do FGTS e uma pequena expansão do crédito estimulada por uma redução também pequena das taxas de juros.

A importância de cada um desses fatores ainda carece de maior análise. E há outra variável importante, cujo efeito creio ser até maior que o de cada uma das citadas. Recorde-se que na divulgação do crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre foi amplamente ressaltado que ele só veio porque na agropecuária o crescimento trimestral foi de 13,4% (!). A grande diferença entre essas duas taxas se explica porque a agropecuária, isoladamente, responde apenas por cerca de 5% do total do PIB. Considerado o agronegócio como um todo, a participação fica perto de 25%.

Na mesma ocasião o noticiário revelou a preocupação de vários analistas com o fato de que o primeiro trimestre usualmente representa o auge da colheita agrícola, com o que o PIB trimestral da agropecuária cairia no segundo trimestre, impactando negativamente a variação do PIB total. De fato, tomando como exemplo o ano de 2015, quando o aumento da safra agrícola foi considerado bom – o da atual é recorde –, o PIB da agropecuária cresceu 4,7% no primeiro trimestre, mas caiu 2,7% no segundo. Mas desta vez a variação foi nula, revelando que a produção agropecuária do segundo trimestre ficou no mesmo nível daquela do primeiro, o que de novo revela a pujança do setor. Acredito que em grande parte isso decorreu da forte elevação da produção de milho no mesmo trimestre, ao ensejo da chamada “safrinha”, que veio como safrona.

Não só faltou enfatizar essa continuidade do ótimo desempenho do setor agropecuário também no segundo trimestre, como novamente a de um fator que apontei em artigo aqui publicado em 17 de junho deste ano, quando abordei o resultado do PIB no primeiro trimestre. Qual seja, o da maior renda de empresários e trabalhadores da agropecuária gerada por esses fortes aumentos da sua produção, com seu efeito se estendendo assim ao período pós-colheita. Nessa linha, o aumento do consumo revelado pela variação do PIB no segundo trimestre também resultou desse crescimento da renda no setor agropecuário.

Aliás, pelo noticiário e pelo que soube numa reunião mensal de que participo na Associação Comercial de São Paulo, as vendas do comércio eletrônico, que vêm crescendo a taxas muito maiores que as do varejo tradicional – o das lojas –, revelaram aumento maior em regiões com mais forte presença da agropecuária. Também soube que as vendas usuais de equipamentos agrícolas, e até de pequenas aeronaves, foram impulsionadas por essa expansão da agropecuária.

Em síntese, é má notícia a de que o PIB ainda permanece bem fundo no buraco, mas conforta um pouco saber que há um movimento em direção à superfície. Cabe refletir muito e seriamente sobre a imperiosa necessidade de acelerar esse movimento, e de tomar medidas rápidas e efetivas com essa finalidade.

E nunca menosprezar o agronegócio. Embora continue carente de uma infraestrutura capaz de melhorar ainda mais o seu desempenho, conforme evidenciado no momento pela sua dificuldade logística em lidar com o forte aumento da produção de milho, o agronegócio continua “salvando a lavoura” da economia como um todo.

*Economista (UFMG, USP e Harvard), é consultor econômico e de ensino superior

Economista (UFMG e USP), mestrado e doutorado em Harvard (EUA). Professor da FEA USP. Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Consultor do BID, da ONU e do Banco Mundial.

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