24 de Nov de 2017


O Oriente Médio afeta o Brasil?

O impacto do preço do petróleo na economia brasileira.

Por: Roberto Nemr
10/07/2017 às 15h31

Existe uma correlação entre Oriente Médio e Brasil, apesar de passar desapercebida, a começar pelo petróleo.  O grande movimento de alta do petróleo, no período 2007-2014, época em que o preço permaneceu próximo de U$100/boe, foi um momento de grande liquidez de petrodólares. Os países produtores reciclavam essa liquidez comprando ativos globais, inclusive do Brasil.

O Brasil também se tornou um produtor importante. Os investimentos de sua principal empresa, a Petrobras, escalonaram.  A taxa de câmbio se valorizou,  provocando uma comoditização de nossa pauta comercial, permitindo um forte movimento de corrupção  que se intensificou com o aumento do valor da principal empresa estatal.

Nos anos 70, o Brasil era um importador importante de petróleo.  Nesta época os preços saíram de US$2 para US$12/boe, e mais para o final da década para US$40/boe, desencadeando um problema sério em nossas contas externas, financiadas justamente pelos petrodólares reciclados no sistema financeiro mundial. A aceleração da inflação nos USA foi a cereja no bolo que levou os juros a subirem significativamente, terminando de quebrar o Brasil.  Esse movimento nos custou os anos 80, que ficaram imersos em falta de dólares e inflação crônica.

Só saímos desse processo após a queda dos juros americanos e o Plano Brady de renegociação dos títulos da dívida. Hoje a questão é outra. A queda dos preços das commodities desacelerou a economia, mostrando um belo rombo fiscal. Os países do Oriente Médio vivem situação semelhante, pois o grosso da arrecadação vem das receitas das petrolíferas. Crise econômica gera crise política, mas como os produtores de petróleo são ditaduras bem estabelecidas os conflitos se transfiguram em outros lugares.

Por exemplo, a guerra na Síria e no Iêmen, que são países de produção petrolífera muito baixa e nível de pobreza alto, são guerras veladas entre Arábia Saudita e Irã, inimigos históricos e não por coincidência ditaduras teocráticas. São o primeiro e o segundo produtor de petróleo bruto na região, respectivamente.  A guerra no Iraque, o terceiro produtor, também se transmudou em conflito sunita-xiita, por encomenda.

Os Estados Unidos, que eram grandes importadores de petróleo, com o crescimento vertiginoso do gás de xisto, quase equilibram sua demanda, o que torna o seu interesse em participar dos conflitos no Oriente Médio mais limitado, a não ser como vendedor de armas, como prova o recente contrato de Donald Trump com a Arábia Saudita, de US$350 bilhões a longo prazo.  A Arábia Saudita está se armando preventivamente e o grande inimigo do outro lado do Golfo sabe disso.

O Brasil pode não passar de um grande exportador de carne e outros produtos agrícolas para os países do Oriente Médio, mas tudo o que se passa na região tem um efeito indireto ou direto sobre nós, seja através do preço do petróleo, seja através do aumento da aversão ao risco. O ponto positivo é que as duas potências regionais e a terceira, Israel, ainda não se engajaram em uma guerra entre si, o que seria bem mais disruptivo.

De qualquer forma desde o primeiro choque do petróleo, tivemos: guerra de Yom Kippur, guerra do Líbano, guerra Irã-Iraque, invasão do Kuwait, primeira guerra do Golfo, guerra do Afeganistão, segunda guerra do golfo, guerra Líbano-Israel, primavera-outono árabe, guerra da Síria, do Iêmen e agora ameaça da Arábia Saudita contra o Catar. Se você acha que tudo isso tem a ver com o petróleo, acertou.  É só lembrar da euforia de Lula em 2008, com a descoberta do pré-sal e da nossa situação atual, e acompanhar o desempenho do petróleo brent nos mercados internacionais.

Se o petróleo é uma dádiva divina, o Diabo faz sua parte ao tornar a maioria dos países exportadores (honrosa exceção da Noruega e Canadá) em anti-exemplos de governança. Basta lembrar de nosso vizinho do norte, a Venezuela, outrora o país mais rico da América Latina.


Economista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor de investimentos para os mercados brasileiro e latino americano. Ex-diretor de portfólio para América Latina do Banco Itaú. Foi diretor geral da Genesis Investment Management.

MAIS NOTÍCIAS