16 de Dec de 2017


Os desafios dos PEZTs: Putin, Erdogan, Zuma e Temer

Brasil está relativamente menos exposto ao risco internacional.

Por: Roberto Nemr
03/05/2017 às 12h13

 

 

Em junho de 2013, eclodiram simultaneamente protestos em São Paulo e Istambul, que se espalharam posteriormente para outras cidades de Brasil e Turquia. Enquanto no Brasil, o estopim foi o aumento da passagem de transporte coletivo; na Turquia, a razão foi o projeto de construção de uma mega-mesquita em uma das poucas áreas verdes da cidade, o parque Gezi, perto da Praça Taksim.

Quase quatro anos depois, fica a impressão de que aquelas manifestações eram, na verdade, o sinal de que havia algo de podre nos dois países. E realmente havia. Assumindo o governo por volta de 2002, as lideranças políticas de ambos os países lograram superar crises profundas e promover uma recuperação econômica extraordinária, com estabilidade monetária. A era Lula surfou na onda internacional das commodities. A era Erdogan, na disponibilidade de fartos capitais.

O final do processo na Turquia foi uma crise externa com perda de investment grade, recrudescimento do autoritarismo e desaceleração econômica.

No Brasil, a política gerou a expulsão da Presidente, investigações contínuas de corrupção, crise fiscal e econômica únicas na história, mas com melhora nas contas externas.

Se o problema no Brasil é basicamente fiscal, com um governo tampão tentando reequilibrar as finanças públicas e recuperar a credibilidade, a Turquia enfrenta uma crise de confiança, que é tratada a patadas pelo seu líder máximo, com prisão de jornalistas, militares e oposicionistas em geral.

Dos quatro países considerados high-yields, que pagam as maiores taxas nominais de juros do planeta, a saber, Brasil, África do Sul, Turquia e Rússia, apenas o Brasil tem conseguido, a duras penas, manter as credenciais diplomáticas.

Os quatro sofreram crises cambiais quase paralelas, perderam investment grade e ensaiam uma recuperação tímida desde meados do ano passado. Um deles (B) teve a presidente defenestrada; outro (AS), quase; um terceiro viu um golpe militar (T); e o último (R) começou a bombardear vizinhos.

A África do Sul preserva seu presidente, apesar das evidências de corrupção; a Rússia é uma mafiocracia, onde o Estado e seus cupinchas controlam 70% da economia; e a Turquia virou um one-man-show.

Em termos de contas externas, Turquia e África do Sul são os que mais dependem de financiamento externo (de 4% a 5% do PIB, acima do prudencial 2% a 3%). O Brasil está entre 1% e 2%; e a Rússia não tem problema nesta área.

Já do ponto de vista fiscal, o Brasil é o lanterninha, correspondendo sua dívida bruta a 72% do PIB, bem superior à da África do Sul, que gira em torno de 50%. Turquia e Rússia estão melhores neste quesito.  Em termos de crescimento, os 4 estão patinando, mas o pior desempenho nos últimos 3 anos é claramente do Brasil, seguido de Rússia, África do Sul e Turquia.

No balanço dos riscos internacionais, os grandes trunfos do Brasil são a manutenção de instituições democráticas, prevalência de governo reformista e força do setor externo, especialmente oriunda da agricultura. Os pontos fracos são seu baixíssimo crescimento e o incremento da dívida pública.

No médio prazo, o crescimento econômico tende a retornar, estimulando o emprego em 2018. Se conseguirmos também reverter a deterioração fiscal em ambiente democrático será um êxito incalculável, se comparado a nossos pares, que calam a oposição e varrem a corrupção para debaixo do tapete. O cenário alternativo ao País poderia ser, é claro, populismo e inflação.

A Rússia e a Turquia têm sérios problemas geopolíticos, a África do Sul enfrenta um desemprego crônico e comercializa intensamente com países de um continente imerso em considerável risco político, climático e patrimonial. O Brasil possui a vantagem de conviver com vizinhos pacíficos, à exceção da Venezuela. O narcotráfico é o grande desafio para os valores mobiliários, que só vai ser definitivamente resolvido com a liberação da demanda.

Os nossos problemas são basicamente domésticos e podem ser resolvidos com uma agenda consensual, que traga redução significativa de juros, câmbio competitivo, retomada de crescimento e reequilíbrio fiscal. Difícil, mas factível. Após anos de Jó, talvez a hora da redenção esteja chegando.

Economista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor de investimentos para os mercados brasileiro e latino americano. Ex-diretor de portfólio para América Latina do Banco Itaú. Foi diretor geral da Genesis Investment Management.

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