16 de Dec de 2017


5 PERGUNTAS: Doug Noland

Por: Economia Hoje
19/10/2017 às 19h54
Gerente de portfólio sênior do MCALVANY WEALTH MANAGEMENT, com 25 anos de experiência em gestão de investimentos. Formou-se com summa cum laude na Universidade de Oregon (contabilidade e finanças) e recebeu seu MBA pela Universidade de Indiana. Entrevista realizada por Roberto Nemr.






1
Podemos dizer que estamos vivenciando a mãe de todas as bolhas financeiras? O que possivelmente poderia estourá-la?
Eu tenho argumentado – já há algum tempo – que esta é a “avó” de todas as bolhas. Sua origem está relacionada ao crash dos mercados de ações dos EUA e do Japão em 1987. Posteriormente, a bolha passou por uma série de altas (booms) e baixas (bursts) ao redor do globo. Em seguida, sua dinâmica passou a envolver o mundo – por meio da maioria dos ativos, incluindo ações, títulos e imóveis. Ela está no coração das finanças – dívidas governamentais e crédito do banco central. A atual bolha global é o resultado de uma série de bolhas que remontam há décadas, impulsionadas por medidas expansionistas dos bancos centrais. Cada bolha inflada foi maior do que a pregressa. Não é óbvio de onde virá o estímulo financeiro se uma crise de confiança afligir os bancos centrais e os títulos governamentais. Então, sim, de minha perspectiva analítica, esta é a mãe de todas as bolhas – e extremamente perigosa.
Neste ponto, eu acredito que mercados globais inflados e altamente especulativos são agudamente vulneráveis a qualquer aperto significativo das condições financeiras. Os bancos centrais provavelmente avaliam as fragilidades subjacentes, caso contrário eles já teriam iniciado a normalização de suas políticas. Sempre é difícil identificar o que pode estourar uma enorme bolha. Pode ser, por exemplo, que os mercados comecem a temer taxas de juros mais elevadas – talvez um pronunciamento mais duro (hawkish) do banco central ou uma elevação inesperada da inflação global. A alta das taxas de juros dos títulos seria desestabilizador. Hoje os mercados de renda fixa da Europa e do Japão, em particular, aparentam ser um desastre em fabricação. Além disso, a bolha é vulnerável ao surgimento de complicações geopolíticas, ou, ainda, pode ser que os mercados de risco globais simplesmente revertam suas posições após a implosão do boom especulativo. Ademais, eu vejo a bolha chinesa sem controle como um enorme risco à bolha global.


2
O mercado dos EUA está altamente valorizado e quase se tornou uma renda fixa. Até quando isso pode se sustentar?
Ao longo dos anos, eu acostumei a dizer, “bolhas vão a extremos inimagináveis – e depois dobram!”. Nós nunca tivemos este tipo de bolha – alimentada por crédito seguro criado numa quantidade ilimitada pelos governos e bancos centrais. Sim, os valores das ações e da renda fixa estão sobreprecificados de maneira ridícula. É um território desconhecido, então é difícil saber por quanto tempo isso pode continuar. Eu acredito que estamos nos aproximando de um fim. Os bancos centrais criaram um monstro e eles devem estar cada vez mais preocupados. A política monetária precisa ser ajustada.


3
Você acredita que a política monetária está para ser alterada ao redor do mundo? Uma mudança pode desencadear a crise?
Eu acredito que anos de taxas de juros extremamente baixas e trilhões em quantitative easing inflaram e distorceram seriamente os mercados de valores mobiliários e de derivativos. Mercados “grandes demais para quebrar” e de dimensões globais. Eu tenho argumentado que estamos hoje no “auge do estímulo monetário”. Eu esperava que os bancos centrais fossem apertar suas políticas em 2017 - mas até agora suas abordagens tímidas têm levado apenas a condições financeiras mais frouxas. Eu espero que os bancos centrais sejam mais agressivos nas medidas restritivas em 2018, e os mercados estão muito complacentes a respeito das vulnerabilidades existentes caso ocorra um aperto significativo das condições financeiras.


4
Você acredita que as criptomoedas são outra Febre das Tulipas?
Eu acredito. As criptomoedas me lembram a Bolha da Internet de 1999. Algumas pessoas fizeram muito dinheiro, mas a maioria perdeu quando o colapso aconteceu. Boa parte das ações ligadas ao boom tecnológico caiu mais de 90% - várias empresas sucumbiram. A criptomania é um sinal sinistro de nossos tempos. Muito dinheiro caçando poucos instrumentos financeiros especulativos.


5
O risco está sendo completamente ignorado em todas as classes de ativos. Qual é sua opinião sobre os mercados emergentes?
Eu estou muito preocupado com os mercados emergentes. Eles têm sido uns dos principais beneficiados da alta liquidez global – assim como, também, têm sido grandes beneficiados da bolha econômica e creditícia chinesa. Recentemente, a liquidez vem inundado os mercados emergentes através dos mercados de índices complexos (exchange-traded funds complex – ETFs). Estes fatores fizeram a bolha dos mercados emergentes mais sistêmica que as anteriores, que foram mais específicas a certos países e regiões. Como sempre, quando a liquidez de curtíssimo prazo (hot money) decidir sair dos emergentes uma série de problemas vão vir a tona. Eu espero que eu esteja muito pessimista quanto a isso. Mas, definitivamente, eu me preocupo com os emergentes no caso da bolha global explodir.


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