16 de Dec de 2017


5 PERGUNTAS: Venilton Tadini

Por: Economia Hoje
10/01/2017 às 14h10
Entrevista com Venilton Tadini
O economista e presidente da ABDIB responde a perguntas sobre a crise atual, as medidas adotadas pelo governo, suas perspectivas, ressaltando a importância do investimento em infraestrutura para a recuperação do país.






1
A crise da economia brasileira continua, contra alguns prognósticos feitos no meio do ano, se aprofundando. Quais são as perspectivas que o senhor vislumbra para 2017?
Trata-se ainda de um mar revolto. Houve uma tentativa de retomada da governança por parte do novo governo, e o anseio de se viabilizar um ambiente econômico para a retomada dos investimentos. No entanto, a crise político-institucional não se resolveu e as medidas adotadas (criação do PPI – Programa de Parceria de Investimentos, PEC do teto, Lei de Repatriação, Lei para Governança de Estatais, entre outras) não foram suficientes para continuar a reversão das expectativas e retomar os investimentos.

Ao contrário a recessão se aprofundou. A indústria está com elevada capacidade ociosa, o consumo está deprimindo pelo desemprego e juros elevados. Além disso o componente de demanda autônoma, que seria investimento em infraestrutura não consegue deslanchar, apesar do esforço que se tem feito, seja pela falta de projetos maduros, herança do Governo anterior, seja pela complexidade para resolver os aditivos e renegociações das concessões existentes.

Resumindo as perspectivas não são boas e infelizmente em 2017, provavelmente, não teremos crescimento.


2
O Banco Central reduziu a SELIC em 25 pontos na última reunião do COPOM. O suporte que existia até bem pouco, ao conservadorismo do BC, aparentemente não existe mais, com alguns economistas que tradicionalmente defendiam juros extremamente altos mudando de posição, e passando a defender cortes agressivos da SELIC. Como o senhor avalia a atual política monetária e seus desdobramentos de curto e médio prazos?
O Banco Central está na contramão da realidade da crise econômica. É absolutamente desnecessário manter a taxa de juros neste patamar e com reduções tão tímidas. Não há problema de excesso de demanda na economia. O que houve foi uma inflação de oferta pautada por preços administrados e um comportamento atípico do setor de alimentos. Para que essa taxa de juros absurda? Repito o que já disse em outras ocasiões, “estamos matando a vaca para eliminar o carrapato”.


3
Como o senhor classifica a decisão do Governo de receber antecipadamente os R$ 100 bilhões emprestados pelo Tesouro ao BNDES em anos anteriores? Como ficaria o financiamento do investimento produtivo, especialmente os de prazo mais longo? O setor privado teria condições de substituir o BNDES no curto prazo?
Não faz sentido nesse momento de recessão, o BNDES principal Órgão de fomento do País, fazer política pró-cíclica. Já disse e repito não haverá grandes investimentos em infraestrutura sem um BNDES forte.

Imaginar que o setor privado, nesse momento de aversão ao risco do mercado, e com esse patamar da Selic, vai fazer financiamento de longo prazo e substituir o BNDES, não é razoável. Isso só ocorrerá para projetos e/ou “Sponsors” muito específicos em termos de atratividade e risco.


4
Quais seriam os pontos mais importantes de uma eventual política de recuperação da economia? O setor de infraestrutura teria, como muitos apontam, papel central nesse processo?
Há praticamente consenso sobre a importância dos investimentos em infraestrutura na recuperação da economia. Seja por conta dos gargalos existentes, seja pelo seu papel na melhoria da competitividade. No entanto para a recuperação da economia é fundamental mexer nos dois pilares centrais que são a taxa de câmbio e os juros. Ambos têm estado em total descompasso com uma política de crescimento sustentável desde o Plano Real, isso não mudou entre os governos. Portanto não se trata de um julgamento político da questão.

Numa ótica macroeconômica, com juros altos e câmbio valorizado – e volátil -, não há capital suficiente para de fato dinamizar o setor de infraestrutura. Em 2016, tivemos o câmbio que mais valorizou no mundo. Em 2015, tivemos o câmbio mais desvalorizado. Eu não consigo estabelecer preço. É um problema para quem toma e para quem aplica. Só gosta quem especula. Se você acelera a redução dos juros, reduz a entrada e a saída de recursos especulativos. E os redireciona para o setor produtivo. É uma questão simples de alocação de portfolio dos agentes econômicos. Precisamos atrair o capital para investir em infraestrutura e não em Selic.


5
Por último, mas não menos importante, qual é o papel da política fiscal nesse momento de colapso da demanda agregada, cada vez mais patente nos indicadores do IBGE?
Não podemos simplificar o diagnóstico de nossa crise atribuindo-lhe apenas o aspecto fiscal. Como já mencionado temos claras disfunções políticas institucionais entre os poderes que arrepiariam Montesquieu.

A crise econômica é marcada por forte contração da demanda agregada. O que o governo está fazendo agora para reverter isso? Contraindo ainda mais a demanda. O equilíbrio das contas públicas é certamente necessário, no entanto, a política econômica, desde o período Levy de caráter, extremamente recessivo, tem dificultado o próprio Ajuste.

É impossível equilibrar as contas públicas com ações que comprometem a arrecadação fiscal, com redução de quase 8% do PIB nos últimos 3 anos. Ou seja há que se definir melhor a qualidade do gasto e executar políticas públicas eficazes para retomar a demanda agregada. Temos que interromper o ciclo recessivo, senão continuaremos a enxugar gelo. A sociedade não aguenta mais dobrar a aposta. O fundo do poço pode ter porão.


MAIS NOTÍCIAS

Produção de veículos continua acelerada

Refletindo o dinamismo das exportações, em boa medida

Governo “ajudou” inflação a subir em novembro

Majorando tarifas públicas e combustíveis

Indústria brasileira: previsão de crescimento de 4% em 2018

Devido ao declínio dos juros reais e à expansão da massa salarial.

Tesouro Nacional: resultado de outubro não foi tão ruim

Mas alcance da meta primária 2017 ainda depende de receita extraordinária.