16 de Dec de 2017


5 PERGUNTAS: Alex Perry

Por: Roberto Nemr
02/10/2017 às 13h18
Alex Perry é um dos grandes jornalistas contemporâneos especializados em África, tendo viajado pelo continente por mais de uma década para escrever The Rift – A New Africa Breaks Free, publicado em 2015 pela Weidenfeld & Nicolson de Londres.
Entrevista realizada por Roberto Nemr.






1
Senhor Perry, comparando o seu livro com o de Martin Meredith (Short History of Africa), podemos observar mais otimismo em relação ao futuro e à autossuficiência do continente. Embora a região tenha avançado no campo econômico, no combate a doenças e na redução da pobreza, ainda há graves problemas institucionais, marcados pelas tendências a autocracias (Kagame, Mugabe, Teshome), ao crescimento da corrupção (Nigéria, Angola, África do Sul, Sudão do Sul), a guerras civis (Congo, República Centro-africana, Burundi) e ao terrorismo (Somália, Quênia, Mali). Mesmo assim, é possível ter uma resultante positiva para o continente ou a frustração é inevitável?
Eu não acho que a dicotomia que você destaca, a mesma que a maioria dos comentaristas sobre a África apresenta, é realmente confirmada pela realidade do continente. Desenvolvimento não é um caminho suave para a prosperidade, mas sim um processo difícil, com altos e baixos, que produz ricos e pobres e que, muito frequentemente, gera algum tipo de desbalanceamento, desigualdades e ressentimentos sociais que levam a rebeliões e revoluções. Olhe os últimos mil anos de história europeia, ou veja a história mundial: onde o desenvolvimento foi pacífico? A conexão entre o avanço generalizado de longo prazo e a manifestação de crises de curto prazo é bastante manifesta, tanto mais que eu penso que a última coisa que se deve buscar é um Estado totalmente pacífico e plácido. Esse é um país que realmente não vai a lugar algum.
Dito de outro modo, significa que eu vejo as crises que você menciona como parte do processo. Algumas são realmente horripilantes. Outras podem destruir países inteiros. É evidente que as atrocidades e as injustiças devem ser apontadas, sendo os governos e os líderes que as causaram devidamente responsabilizados. Mas, nada disso significa que a África não esteja andando para frente. Está, e o progresso é um fenômeno humano inevitável, de fato. Nós temos que entender que o avanço de longo prazo pode ser, em termos imediatos, incrivelmente sanguinário e custoso. Milhares de anos de história nos mostram que, tristemente, esta é a natureza do processo.



2
Assim como o Brasil, a África se beneficiou dos elevados preços de commodities e investimento da China nos últimos 13 anos. Com preço das commodities mais baixo e Investimento Direto mais limitado, as taxas recentes de crescimento são sustentáveis?
De fato, a África tem se distanciado de ser uma economia centrada em commodities nos últimos vinte anos. Aproximadamente 75% do crescimento, atualmente, é função de setores não ligados a commodities, especialmente serviços. Isso é o que acontece quando qualquer economia se desenvolve: uma das formas em que esta maturidade se manifesta é na diversificação. Países e setores que se deram melhor na África na última década tendem a não depender em demasia de commodities. Então, eu tendo a ver este ponto da centralidade das commodities como meio ultrapassado. Hoje, a África tem bancos de bilhões de dólares, companhias de tecnologia, cadeias de sushi e serviços de entrega por drones. Commodities não importam da mesma maneira como antes.


3
Como você menciona no livro a África tem 60% do potencial arável do mundo. É possível que aconteça, nos próximos 20 anos, a mesma revolução agrícola que vimos no Brasil, onde a produtividade dobrou? Ou a falta de direitos adequados de propriedade, instabilidade política, falta de investimento em maquinário e padrões irregulares de clima podem comprometer a produtividade e segurar o crescimento da produção agrícola?
Vejo a agricultura mecanizada como uma das grandes esperanças da África. A terra agrícola no continente tem sido histórica e cronicamente sublavrada, principalmente em áreas do continente que são simplesmente vazias e em pequenos terrenos dependentes de chuva, com quase zero de investimento. A África é tão grande e tão subpovoada, que usar esta terra produtivamente é uma oportunidade tão incrível, que não posso ver a agricultura de outro modo a não ser como um fantástico motor do crescimento. Tanto é que isso já está acontecendo no continente, principalmente no Vale de Rift. O mais incrível é a disseminação rápida do potencial para mitigar os efeitos de mudança climática, já que as temperaturas em áreas onde o Saara foi reflorestado (regreened) caíram em média cinco graus. É literalmente a coisa mais “cool” que eu já testemunhei.


4
Sendo o continente com a mais alta taxa de natalidade do mundo, o aumento da produção agrícola é uma necessidade. Isso também é válido para a industrialização, uma vez que o foco em commodities não produz empregos suficientes. Desse ponto de vista, o seu crescimento populacional será um bônus ou ônus?
A preocupação com o crescimento populacional esquece o contexto em que essa expansão está ocorrendo, sendo sempre retratado como um pesadelo malthusiano, que inevitavelmente produzirá fome e migração em massa. Isso não faz sentido. A África é o lugar da Terra menos densamente povoado. Mesmo que sua população atinja quatro bilhões de pessoas ao final deste século, ainda será muito menos povoada do que a Índia, a China ou a maior parte da Europa. Além disso, seu crescimento populacional está produzindo cidades e conectividade que são os motores do desenvolvimento e cuja falta foi justamente o que manteve a África atrasada por tanto tempo. Adicione uma população declinante e envelhecida na Europa e uma população jovem, crescentemente alfabetizada e educada na África - muitas vezes fluente na língua inglesa, francesa ou portuguesa - mais o crescimento da subcontratação e da sublocação, devido à evolução crescente da comunicação e da globalização, e eu diria que estamos olhando para a mão de obra global do futuro. E não só de trabalhadores de menor qualificação, como acontece hoje, mas sim de escriturários, advogados, engenheiros, pessoal médico e administradores, como já acontecem na Ásia.


5
Como lidar com a corrupção, que também é um problema sério para o Brasil? Será que o lema “Sim ao Investimento, Não à Corrupção” que você menciona no livro conseguirá se afirmar ou a condescendência continuará prevalecendo?
A corrupção se combate com cobrança democrática, algo que está evoluindo na África. Está longe da perfeição, é claro, e o caso da África do Sul é o maior exemplo de como a corrupção pode piorar antes de melhorar no curto e no médio prazo. Entretanto, países como Senegal, Quênia ou Zâmbia apresentam níveis semelhantes de corrupção da Itália ou do Brasil. É grande coisa, mas não é suficiente para levar o país inteiro para o fundo do poço e sempre há esperança de melhora.


Economista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor de investimentos para os mercados brasileiro e latino americano. Ex-diretor de portfólio para América Latina do Banco Itaú. Foi diretor geral da Genesis Investment Management.

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