16 de Dec de 2017


5 PERGUNTAS: Carlo Alberto Brioschi

Por: Roberto Nemr
27/07/2017 às 15h36
Jornalista, autor e editor. Entre vários livros, escreveu "Il malaffare" (2011) e "Il politico" (2014).
Entrevista realizada por Roberto Nemr.






1
Senhor Brioschi, a ex-presidente Dilma Rousseff se referia à corrupção como a “velha senhora”. Apesar de deposta após denúncias de irregularidades em seu governo, ela tinha razão. Seu livro mostra o quão presente a corrupção está na história humana, desde a Mesopotâmia até a América atual. O Senhor acha que devemos tolerar certa dose de corrupção como inevitável?
A corrupção é, na verdade, uma “dama jovem”, sempre em forma e atraente para os agentes públicos e administradores privados. Uma espécie de ser eterno capaz de se renovar e se adaptar, de acordo com o tempo e o lugar. Não pode ser eliminada, assim como não se pode erradicar o crime e o roubo, mas pode ser combatida com a mesma determinação (a única – notável – diferença é que quem comete a agressão pode eventualmente coincidir com quem deveria evitá-la).
Há, claro, uma escala na gravidade destes crimes e desvios de conduta, mas não há como distinguir entre a má e a “honesta rapina”, tese apresentada por George W. Plunkitt, famoso membro do Tammany Hall, a máquina eleitoral e política que comandou a cidade de Nova Iorque, com propinas e favores ilícitos, desde o fim do Século XVIII até o começo do Século XX.


2
Comparando a operação italiana “Mãos Limpas” com a brasileira Lava Jato, o resultado na Itália foi Berlusconi; e nada, de fato, mudou substancialmente (ou mudou?). O senhor pensa que a probabilidade de mudanças também é baixa no Brasil?
A operação Mani Pulite, que começou em 1992, com a prisão, em Milão, de um diretor socialista de um asilo de idosos, levou a uma incrível sucessão de prisões e confissões, que, ao fim, abalou todo o panorama político nacional nos anos seguintes, pavimentando o caminho para o governo do magnata Silvio Berlusconi.
O novo primeiro-ministro, infelizmente, não só falhou ao combater a corrupção, como alegaram muitos eleitores, mas, ao contrário, envolveu-se em uma série de grandes escândalos. Isso não significa que as investigações foram inúteis. Um esquema de financiamento ilícito de partidos foi desmantelado e toda uma elite dirigente foi punida. Desde então, a corrupção não morreu, claro, mas teve que encontrar outros meios de manifestação.
Investigações e escândalos, como Lava Jato ou Mani Pulite, podem atacar o problema e curar algumas feridas, mas não nos desobriga de continuar observando os novos personagens da cena política, para que ele não caia nos erros do predecessor.


3
A moderna tecnologia pode ser grande aliada na luta contra a corrupção, pois permite acessar informações on-line e maior transparência. Sempre vão existir modos de esconder o ilícito, como dinheiro vivo, ouro, bitcoin etc, mas o jogo está se virando contra a corrupção, como a criação do CRS (Common Reporting Standard - troca automática de informações entre bancos e fiscos), supervisão bancária, cooperação da Interpol, iniciativas do Departamento de Justiça americano, Corte de Justiça Internacional etc. Qual é sua visão?
A tecnologia é um instrumento extraordinário, mas depende de quem a usa e com que propósito, naturalmente. Pode facilitar a transparência, que é fundamental na luta contra a corrupção, mas, claro, pode ser usada por hackers e especuladores, em fraudes ou lavagem de dinheiro, por exemplo. A web, o jornalismo cidadão e, crescentemente, a mídia viral à disposição de denunciantes estão aumentando, rapidamente, o número de denúncias de malfeitos e demandas por transparência.
Se certas barreiras de silêncio e conivência parecem cair, envolvendo vínculos de governos com paraísos fiscais, ao mesmo tempo, novos esconderijos surgem constantemente, junto com diferentes formas de ilegalidades públicas e privadas.


4
O balanço maquiavélico entre fins e meios ainda vale hoje ou os meios podem ser tão deletérios à ética pública, que acabam afetando os fins?
Maquiavel criticava os retratos ideais de governantes possuídos de “pureza angelical”, típicos de seu tempo, mas não era a favor de um Príncipe corrupto. O pensador florentino ainda pode ser útil em nossos dias. Devemos lembrar que sua teoria é, de fato, baseada na oposição entre co-existência civil e ação política, de um lado; e corrupção, de outro.
Aos olhos de Maquiavel propinas significavam, em qualquer caso, falta de virtude; e, em seus escritos, a procura por moral e remédios institucionais para prevenir corrupção política é um tema recorrente. A queda do império romano, em sua visão, foi, principalmente, devida aos vícios e à decadência da classe política.


5
O movimento recente em direção a governos autoritários em vários países (Turquia, Egito, Tailândia, Filipinas etc) e o aumento do populismo em países desenvolvidos podem significar uma diminuição no combate à corrupção? Por outro lado, Narendra Modi, na Índia, está tentando diminuir a corrupção pela substituição de papel-moeda; e na China, a retórica anti-corrupção está em alta, mas falta transparência. A Rússia é controlada, inescrupulosamente, por pouquíssimos grupos políticos; na África e América Latina, a corrupção é muito presente etc. A vontade política para combater a corrupção em escala global deve prevalecer ao fim e ao cabo?
Não sou tão pessimista em relação ao presente ou ao futuro próximo. No livro, uma rápida recapitulação ao longo dos séculos permite vislumbrar um processo cíclico: nos pontos altos de más práticas, em que não se esconde a dimensão e o alcance do roubo e a impunidade da classe política, esforços sempre emergem para produzir reformas, de modo a reduzir a prática de propinas.
Para cada Verres (120-43 a.C.), um governador corrupto da Sicília, quando era uma província rica do Império Romano, sempre havia um Cícero pronto a condenar suas práticas. Os roubos de Júlio César foram combatidos por Metellus; Martinho Lutero levantou-se em protesto contra os excessos de clientelismo do papa Leão X. Cada ladrão (de toda classe e natureza) teve que enfrentar um adversário, com variados graus de sucesso ou fracasso para cada um.
O historiador conservador Edmund Burke lutou contra os crimes de Warren Hastings, o primeiro governador das Índias Orientais Britânicas; o socialista Giacomo Matteotti (1885-1924) levantou sua voz no parlamento italiano contra Mussolini. A batalha pelo poder político frequentemente faz uso do “pé-de-cabra” de acusações politicamente motivadas ou legais contra a natureza corrupta do governante ou líder. O método pode parecer heterodoxo, mas, deste modo, o mecanismo de alternância no poder tende a funcionar mais eficientemente.


Economista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor de investimentos para os mercados brasileiro e latino americano. Ex-diretor de portfólio para América Latina do Banco Itaú. Foi diretor geral da Genesis Investment Management.

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