16 de Dec de 2017


5 PERGUNTAS: Luiz Gonzaga Belluzzo

Por: Economia Hoje
09/01/2017 às 11h21
Entrevista com Luiz Gonzaga Belluzzo.






1
A surpreendente vitória do candidato Donald Trump tornou as expectativas globais ainda mais preocupantes. O governo Trump pode estar na origem de uma nova ordem econômica mundial?
Eu imaginei que o Trump tivesse chance de ganhar a eleição, pois, de certa forma, acolheu as aspirações de uma parcela importante da sociedade americana, que sofreu os efeitos negativos da chamada globalização, além das transformações tecnológicas dos últimos anos, com a caminhada em direção a maior automação na indústria e nos serviços, cujas consequências foram sentidas no mercado de trabalho.

Segundo avaliação do ex-Secretário do Trabalho (do governo Clinton) Robert Reich, em 2020, haverá uma fração importante dos trabalhadores americanos em situação de precarização (Zero-Hour Contract). Então, Trump falou para essa camada de americanos, muitos de classe média, que ascenderam com a estrutura da empresa anterior hierarquizada, onde havia carreira. E isso deixou de existir, em função dos deslocamentos das empresas para fora das cadeias globais de valor, que muita gente fala e não sabe direito o que é. Tais empresas se tornam cada vez mais independentes da localização, sobretudo, se você for olhar o que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, é possível reconhecer os vencedores e os perdedores desse movimento.

Trump está dando uma resposta a isso. Não sei se será uma resposta que não cause danos. Tentar retomar o protecionismo do final do século XIX começo do XX, não vai ser possível. O equilíbrio manufatureiro global depende muito da cooperação entre os países. Ele não pode botar uma tarifa de 45% nos produtos chineses, porque muitas empresas americanas, que são de tecnologia avançada, dependem do fornecimento de insumos, peças e componentes chineses.

Foi feita uma redistribuição espacial que exige da manufatura muito equilíbrio, muita redefinição das politicas globais, a começar com o papel do dólar como moeda de reserva, que dá aos EUA sempre um privilégio enorme, o que o economista Barry Eichengreen chamou de “privilégio exorbitante” (que, aliás, é uma frase do de Gaulle).

Não se pode tomar a vitória do Trump pelo valor de face, nem mesmo achar que ele vai fracassar. Ele tem um projeto de investimento em infraestrutura, que pode ser benéfico, na medida em que expande a renda dos EUA; benéfico para seus parceiros comerciais, podendo funcionar adequadamente. Agora, as outras relações que ele está querendo tocar como, por exemplo, a questão da política monetária, eu acho que são mais delicadas, podendo afetar negativamente o resto do mundo e, especialmente, a nosotros.


2
A atual política econômica brasileira é prisioneira da realização urgente do ajuste fiscal e da vigência de juros reais estratosféricos. Como superar essas amarras para o Brasil retomar o crescimento?
O Brasil se lançou numa aventura de fazer um ajuste fiscal completamente inadequado para a situação em que a economia vivia em 2014. Eu não gosto de trombar com os dados mais evidentes, pois, às vezes, os economistas se dedicam a torturar os números. Eu gosto de olhar os dados e, em 2014, já se observava que o Brasil teve um crescimento do PIB, agora na revisão da série do IBGE, de 0,5%; e um déficit primário de 0,6% (como proporção do PIB). Medido em relação ao crescimento anterior à revisão de 0,1%, o déficit parecia maior do que realmente foi.

Houve uma precipitação e uma avaliação equivocada a respeito de como se projetar esse reequilíbrio fiscal. Uma coisa que é inegável. É preciso fazer um esforço enorme, pois o déficit de 0,6% ante um crescimento de 0,1% em 2014 transformou-se num déficit primário de praticamente 3% do PIB, dois anos depois.

O Brasil, tentando corrigir um equívoco do governo anterior, que segurou os preços da gasolina e as demais preços, deu um choque de tarifas que levou a inflação de administrados para 18% aa. A inflação, medida pelo IPCA foi de 10,5% em 2015; e isso foi acompanhado de um choque de juros, que praticamente dobrou a taxa de juros nominal de 7,25% aa, em 2013, para 14% aa, somado ao corte de gasto público.

O investimento público caiu 21% e, não há nenhum manual de macroeconomia que possa escapar dessa conclusão, isso daria um choque negativo no nível de atividade e, realmente, isso nos levou a uma situação de depressão. O PIB está caindo entre 8,5% aa e 9% aa. É uma depressão que observamos hoje. Muita gente está começando a se dar conta de que as esperanças de ganho de confiança ficaram bastante abaladas, pois para quem olha o conjunto das relações de uma economia de mercado capitalista, precisa olhar o balanço das empresas.

A partir dos balanços é possível identificar que a situação das empresas piorou muito, não só com a queda das receitas derivada da queda da demanda, mas também por conta do choque de juros. Outro dia, olhava uma empresa que fez uma operação de crédito tendo um faturamento de R$ 70 milhões. Quando ela fez essa operação, em 2012, a taxa que estava pagando era 9% aa; e, hoje, está pagando 21% aa. Portanto, além do choque de custos e queda da demanda, as empresas já não conseguem arcar com as dívidas diante do choque de juros e, neste sentido, a grande questão, hoje, para as empresas é como lidar com as dívidas.

Eu tenho conversado com muita gente e eles fazem renegociação já no terceiro ano. Solicitam renegociação, pois já não conseguem administrar o serviço da dívida, então eu vejo isso com muito pesar porque as recomendações dos economistas tiveram grande importância na definição dessas politicas. Não porque eles fossem desonestos, mas porque partiram de premissas e de suposições que não correspondiam à real situação da economia. Eu sempre comparo essa tentativa de fazer o ajuste com o pugilista que vinha meio grogue do primeiro round, senta no banco e o treinador em vez de abaná-lo com uma toalha, como costumam fazer, dá–lhe um murro na cabeça, e de grogue desmaiou; eu acho que é o exemplo que posso dar.

Sobre medidas de recuperação, é difícil falar sobre isso hoje, pois há um convencimento de que você precisa coibir qualquer tipo de gasto, mas o Estado precisa montar um sistema de financiamento de definição de projetos que consiga dar um pouco de esperança para o setor privado. Sozinhos não vão sair desse buraco, de uma situação em que seus balanços estão muito machucados. Imagina se é possível pensar que seja racional para um empresário que está numa situação como essa, se ele vai querer contratar mais gente ou investir.


3
A indexação de preços segue incrustrada na alma de nossos atores econômicos. É possível neutralizar este mecanismo, sem recorrer a políticas monetárias ainda mais restritivas?
Se a indexação é alta, um choque de juros não conseguiria debelar a indexação, porque aí tem um trade-off. Teria de mexer nos preços relativos, pois um choque abrupto nos preços livres é uma loucura, como se o sistema de preços pudesse ser permanentemente dinâmico. Daí sacrifica-se, na verdade, os preços que são livres e o PIB. O propósito da teoria de metas de inflação é estabelecer, justamente, uma relação entre a administração das expectativas e o desempenho do PIB, com o menor custo possível.

Isso é o que eu estava lendo hoje, um artigo que eu escrevi sobre o Michael Woodford, que é um dos teóricos mais abalizados respeitados da teoria de metas (de inflação). Ele diz que você tem que atuar, em primeiro lugar, sobre os preços flexíveis; e respeitar o fato de haver certa rigidez. Ele trabalha com rigidez de preço e, por exemplo, querer afetar de maneira muito rigorosa os preços mais rígidos, impede que os resultados sejam aqueles que você pretende. Com a hipótese dos preços mais rígidos, você não pode, por exemplo, fazer uma política para afetar especialmente o preço dos alimentos. Porque lá [nos EUA], eles trabalham com Core Inflation, não trabalham com a inflação cheia. É o que eles recomendam, porque senão o efeito sobre o nível de atividade vai ser muito maior do que o efeito da estabilização.

A recomendação é para que se trabalhe com os preços mais rígidos, pois a suposição deles é neokeynesiana. Isso vem lá de trás, com Arthur Okun e de outros que trabalharam com essa possibilidade, não foi uma coisa que surgiu de repente. Então o regime de metas é chamado de neokeynesiano, mas não tem nada de neokeynesiano. É um regime muito menos rígido e drástico do que, por exemplo, o monetarismo do Friedman, pois não trabalham com os agregados monetários.

Assim, o sistema de metas usa a taxa de juros de curto prazo, mas é um mecanismo de administração de expectativas. Não é preciso dar um choque. Muitos economistas dizem o que, em certas circunstâncias, você tem que ser muito cauteloso. Por exemplo, numa situação em que o PIB cai rapidamente e existe uma dívida muito alta, a relação dívida/PIB se deteriora. Não é para dar choque, mas para administrar as expectativas, olhando sempre para frente, e de preferência com prazo razoável. Muitos países olham dois anos à frente; e o que aconteceu aqui é um exemplo de como não se deve fazer politica monetária de curto prazo, quer dizer, promoveu-se um choque assim, repentino, querendo jogar rapidamente a inflação na meta juntamente com o choque de oferta. Não é recomendável que se faça uso da taxa de juros para debelar choque de oferta.

Por isso, quando ocorre um choque de oferta agrícola, é preciso retirar esses preços dos índices, pois senão uma decisão será tomada em cima de uma coisa que é reversível no curto prazo. O Olivier Blanchard falou no começo dos anos 2000 que o Brasil estava numa situação de dominância fiscal, ele fez um artigo sobre isso quando estava no FMI.


4
O governo Temer pretende reduzir o papel do BNDES no financiamento dos investimentos, direcionando sua atuação para áreas específicas, como exportações e infraestrutura. Os bancos privados ocuparão o lugar que foi do BNDES na última década?
Essa questão do BNDES, na verdade, muita gente dizia que expulsava o setor financeiro privado do mercado porque usava taxas de juros subsidiadas e que, portanto, tornava a política monetária menos eficaz. A questão da politica monetária sempre foi uma politica de crédito direcionado, então havia essa argumentação. No entanto, o que nós podemos assistir é que todo debate sobre criar condições para o mercado de capitais seria muito positivo se nós tivéssemos uma taxa de juros mais civilizada. Não há possibilidade de haver desenvolvimento do mercado de capitais com uma taxa de juros real que nós tivemos nos últimos anos, próxima de 5% aa em média. Talvez, deixando cair para 3% aa ou para 2% aa seja possível ter essa combinação entre o papel do banco público e o papel do banco privado.

Para infraestrutura, num prazo de 20 anos, não há viabilidade de financiamento com uma taxa de 15% aa, a taxa interna de retorno não fecha e não vai fechar. Agora, reduzir o percentual do BNDES, em projetos de infraestrutura, para 50%, não é uma coisa que você pode realizar de uma forma ideológica. Então, o momento hoje é de aumentar o papel do BNDES se for executar uma politica de recuperação, mas isso não bate com as convicções que são aí dominantes. Infelizmente, o governo vai ter de aprender fazendo a economia sofrer um pouco mais e eles também.


5
O desemprego alcançou nível extraordinário, a desigualdade social tende a se acentuar e a intolerância política é alarmante. O binômio democracia-crescimento econômico pode eventualmente entrar em xeque?
Não só no Brasil, mas em muitos países há uma relação muito clara, infelizmente, entre uma crise devastadora como essa que nós estamos vivendo e a que viveram outros países. Mesmo países que não tiveram crises tão devastadoras, mas persistentes, como é o caso dos países europeus que você tem um movimento de desconfiança das instituições e dos processos de decisão na democracia. Quando há desconfiança, começam a achar que a politica é o mal, que os políticos todos são ladrões, aí vem a história da corrupção. Quando se começa a discutir a viabilidade, a conveniência, de se tomar certas decisões começam a separar os bons contra os maus. Quando isso ocorre, envereda-se por um caminho muito ruim, pois a humanidade moderna não comporta essa separação.

A democracia sobrevive e ela vai sobreviver, vai avançar, talvez depois dos percalços, pois ela institui processos de negociação de interesses contrapostos. Essa sociedade não é uma sociedade homogênea, os interesses são contrapostos. Quando se advoga um regime autoritário, eu entendo supor que alguns interesses vão se sobrepor aos demais. Acho que não existe essa imposição do interesse geral, isso é uma negociação, é uma mediação. A democracia é uma mediação, então quando se polariza muito e se espalha essas convicções maniqueístas, como vejo na televisão, eu fico muito impressionado. Às vezes, a transmissão dessa mensagem é quase que direta, nem subliminar é mais; é uma luta do bem contra o mal, sobretudo, porque isso tem um poder de convencimento muito grande. Dessa maneira é muito perigoso, eu diria hostil à democracia.


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