24 de Jul de 2017


5 PERGUNTAS: Roberto Macedo

Por: Economia Hoje
30/03/2017 às 11h00
Economista (UFMG e USP), mestrado e doutorado em Harvard (EUA). Professor da FEA USP. Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Consultor do BID, da ONU e do Banco Mundial.






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O resultado do PIB ano passado foi, como se previa, desastroso, conformando no biênio 2015/2016 uma contração da economia brasileira de 7,2%, o que caracteriza o período com a maior recessão estatisticamente comprovada do país. Com isso, ocorreu um verdadeiro colapso da renda per capita, contraindo-se 9,1% desde o início da crise em 2014. O senhor considera a atual política econômica suficiente para promover a retomada do crescimento?
A atual política econômica é como um 'pronto socorro', pois é predominantemente voltada para o problema mais grave e imediato, a desastrosa condição fiscal (não é só federal), com desdobramentos nos demais entes federativos. Com o teto para os gastos, e se passar a reforma da Previdência, sem grandes danos ao seu conteúdo, o governo procura melhorar a confiança dos agentes econômicos, em particular de empresários, consumidores e do setor financeiro, em relação ao status do maior deles, o governo, que estimularia decisões de investimento, consumo e empréstimo. Mas, na melhor das hipóteses, isso e outros fatores favoráveis levariam o PIB a crescer a uma taxa perto de 2,4% a partir de 2018, conforme as últimas estimativas do Relatório Focus do Banco Central. Para mim, a “retomada do crescimento” seria voltar a taxas perto do dobro da citada. A atual recessão se sobrepõe a uma estagnação de longo prazo, pois nas últimas três décadas, e na atual, as taxas anuais médias foram 1980 (3,0%), 1990 (1,6%), 2000 (3,4%) e 2010 (1,4%). Nas quatro anteriores, a média anual foi 6,8%. O país precisa sair desse buraco de taxas de crescimento reduzidas e não vejo o governo e nem mesmos os economistas discutindo o assunto.


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Apesar de seu impacto modesto, o desempenho favorável do setor externo foi um dos poucos estímulos para a economia brasileira nesses anos de recessão. No entanto, a recente valorização da moeda nacional tem gerado temores, principalmente no setor industrial. Como o senhor avalia a política cambial, especialmente no que tange aos seus impactos no setor secundário?
Minha visão da questão cambial indica que já perdi a paciência com essa conversa de câmbio flutuante que vem desde que surgiu o tripé da política econômica (câmbio flutuante, superávit fiscal e meta de inflação). Na prática, o desempenho dessa flutuação mostra que ela não pode prescindir de intervenções que levem em conta uma taxa condizente com as condições econômicas do país. Creio que essa taxa estaria hoje em torno de US$/R$ 3,50 , pois quando chegou aí nos seus movimentos mais recentes, demonstrou ser suficiente para estimular as exportações. Não vi empresários reclamando do câmbio, como já fazem agora. Entendo que o BC perdeu uma oportunidade de mantê-la em torno desse valor. Como fazer isso? Entre outras medidas, tributando o capital que ingressa no país, e que é um dos grandes fatores a pressionar para baixo a taxa cambial. Acho que o BC se acomoda com o câmbio valorizado, pois seu mandato é controlar a inflação, e esse câmbio o ajuda bastante.


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Qual a importância das reformas propostas pelo governo e ora em discussão no Congresso Nacional para a recuperação da economia?
As reformas previdenciária e trabalhista são muito importantes. A primeira é crucial para a questão fiscal, e sem ela a recuperação da economia pode ser prejudicada por desconfiança por parte dos demais agentes econômicos quanto à situação fiscal do governo, como afirmei anteriormente. A trabalhista, e me refiro àquela voltada para a terceirização e à que propõe a prevalência do negociado sobre o legislado nas negociações entre empregados e empregadores, diminuiria a insegurança jurídica e estimularia investimentos e o emprego, entre outros impactos favoráveis. Entendo também que o governo deveria reforçar muito sua comunicação com a população no que tange ao mérito dessas reformas. O debate está muito poluído pelos que se opõem a ela, recorrendo-se tanto a raciocínios equivocados como a mentiras deslavadas. Como exemplo, vale mencionar aquela que diz que com a criação do limite de idade proposto pelo governo “as pessoas morreriam antes de aposentar”, brandindo estatísticas de expectativa de vida ao nascer, e não as de sobrevida nos limites propostos. Expectativa de vida ao nascer caberia numa descabida discussão de aposentadoria de bebês.


4
Como o senhor avalia a atual situação do mercado de trabalho? É razoável esperar o início da recuperação dos níveis de emprego e renda ainda este ano?
Acho difícil, mas torço para estar errado. A recuperação do emprego só acontece mais à frente no processo de saída de uma recessão. Quando esta se inicia e prossegue, as empresas dispensam menos empregados do que o número indicado pela queda da produção, pois uma parte da mão de obra é indispensável, como os gestores das várias áreas, e também porque interessa reter empregados cuja qualificação a empresa investiu. Quando há retomada da produção, o contingente existente é suficiente para expandir a produção por algum tempo antes que as necessidades de contratar mais trabalhadores se tornem prementes. O aumento de 37 mil empregos que o Caged mostrou em fevereiro foi uma boa notícia, mas não há porque se entusiasmar com ela. Teve um quê de sazonal, como as contratações realizadas pelo setor ocupacional, e é um número irrelevante se comparado ao aumento do desemprego a partir de 2015, que ficou perto de 4 milhões de pessoas.


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Mudanças recentes no plano internacional, com destaque para o BREXIT, a anunciada retirada dos EUA do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), o aprofundamento das tensões entre certas nações (especialmente entre aliados tradicionais), bem como acirradas disputas internas em alguns países importantes, têm gerado incertezas nos mercados internacionais, que têm passado recentemente por ondas de pessimismo/otimismo. Como o Brasil deve se comportar nesse cenário? Trata-se de uma ameaça ou oportunidade?
O Brexit já é uma realidade, mas há também muita incerteza quanto ao que o novo presidente dos EUA irá fazer de concreto, pois é dado a “trumpalhadas”. Supondo que na área de comércio realizará pelo menos uma parte do que propôs como candidato, e sem saber se alguma coisa ruim também vai sobrar para o Brasil, dois alvos são mencionados como principais, o México e a China, e as suas exportações de manufaturados para os EUA. Nesses casos vejo até mais oportunidades, pois México e China importam produtos agrícolas dos EUA. Assim, o Brasil poderia tomar algum espaço no atendimento das necessidades de produtos agrícolas desses dois países, se eles retaliarem reduzindo importações agrícolas dos EUA. Com o Brexit, já cabem negociações bilaterais do Brasil com a Grã-Bretanha em busca de oportunidades. Creio que o Itamaty já deva estar trabalhando nisso.


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